Dois meses tinham passado. Mas o relógio da mesa-de-cabeceira de pau-preto permanecera alterado. Adélio sentia-se traído pelo vil destino. Tinha faltado ao único compromisso amoroso em 3 anos. Ela era divina e sublime, apenas aparentava um grave problema de pé-de-atleta. Nem tudo isto parecia ser um obstáculo às pretensões do robusto e firme sonâmbulo das ruas do Bombarral. Inexplicavelmente, acordava de rompante todos os dias com o cheiro imundo de tremoços vindo da adega do senhor Lenhoso.
No que dizia respeito à sua vida amorosa, acreditava na intervenção do fado. Mas nunca acharia que iria encontrar tal beldade como Urraca, a senhora portadora de pé-de-atleta, curiosamente apenas num dos pés.
O entrecruzamento destas vidas mortais tinha-se dado num acontecimento fugaz. O encontro proporcionara-se da tenda de Adélio, vendedor de leitões, na festa regional do vinho do Oeste. Sem mais demoras, envolveram-se num único beijo provocado pelo intenso contacto sensorial entre ambos. Naquele conjunto de corpos, não mais se distinguia entre coxas, o pé com o pé-de-atleta de Urraca, ou o hálito de maracujá com tendências olfativas para alho vindo de Adélio…
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