terça-feira, 27 de novembro de 2012

A casa de sopas em Mértola

      Dorinda enfrentava fantasmas do passado. Em vidas anteriores, teria sido um texugo com anatomia semelhante a um papa-formigas vegetariano que destruíra as colheitas anuais da sua comunidade, e também, mais recentemente, um camionista que fazia ligação entre o Café-Restaurante do Abílio e a Pousada de Arlete. Falecera durante uma dessas viagens e a autópsia revelara que a mistura de sopa de grão com molho barbecue fora fatal, apesar do acidente se ter verificado de noite e apenas ter consumido pequeno-almoço nesse dia. Dorinda soubera destas desventuras através de Zélia, a bruxa que vivia entre os montes. A partir desse instante, o seu dia-a-dia não mais seria aquele recanto da serenidade que procurava. Iria pagar pelos erros cometidos anteriormente...

      Os anos passavam e as marcas dos castigos iam-se revelando. Em apenas duas semanas, fora exposta aos maiores perigos conhecidos pela civilização. Fora atropelada por um tractocarro que circulava a 15 km/h e seguidamente teria sido abalroada pelos ciclistas da Volta ao Bombarral em bicicleta. Os ferimentos eram incontornáveis... Somente um milagre traria Dorinda de regresso às suas capacidades motoras normais.
   
      No seu veículo, parte cadeira-de-rodas, parte motorizada a vapor, feito à sua medida pelo Abílio do café, Dorinda decidiu partir para longe. Não pretendia voltar, mas nem chegou a ir... A cadeira-de-rodas não tinha combustível, e os preços haviam subido em flecha. Não podia ser pior.

      Nada podia ser, de facto, pior. A não ser algo que não fosse melhor nem igualmente mau. A vila tornara-se demasiado pequena para as aspirações de Dorinda. Conhecia cada calçada, cada parede, cada janela de toda a localidade. Queria mais, queria visualizar tudo o que não tinha visto antes. E o inconcebível aconteceu... Encontrou o circo dos cinco anões, uma tenda enorme com espaço para 125 anões gigantes...

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